Pais que trabalham no setor de tecnologia limitam acesso dos filhos ao celular

Pais que trabalham para grandes empresas de tecnologia estão limitando cada vez mais o acesso dos filhos ao celular. Foto: Peter Prato para The New York Times

As pessoas mais próximas de determinados aparelhos frequentemente são as mais cautelosas a respeito do seu uso. Os especialistas em tecnologia sabem como os celulares funcionam na realidade, e muitos decidiram não permitir que os seus filhos se aproximem deles.

Tal desconfiança está se tornando cada vez mais intensa e já constitui um consenso no Vale do Silício: os benefícios dos celulares como ferramentas de aprendizado são exagerados, e os riscos de provocarem dependência e atraso no desenvolvimento das crianças parecem elevados. Agora, o debate gira em torno de um grau de exposição a estes dispositivos que possivelmente não seja prejudicial.

“Não permitir de modo algum o uso do celular é mais fácil do que permitir só um pouco”, afirmou Kristin Stecher, ex-pesquisadora de computação social casada com um engenheiro do Facebook. “Se meus filhos pegarem um pouco no celular, vão querer cada vez mais”.

Kristin, 37, e o marido, Rushabh Doshi, pesquisaram o tempo gasto com um celular e chegaram a uma simples conclusão: não permitir mais nenhum em casa. Suas filhas, de 5 e 3 anos, não podem pegar em um celular, e não têm permissão para usá-lo em momento algum, apenas durante uma longa viagem de carro ou de avião.

Recentemente, ela abrandou um pouco esta ordem. Todas as sextas-feiras, a família vê um filme.

Athena Chavarria, que foi assistente executiva do Facebook e atualmente trabalha no braço filantrópico de Mark Zuckerberg, a Iniciativa Chan Zuckerberg, disse: “Estou convencida de que o demônio mora nos nossos celulares e está acabando com as nossas crianças”.

Athena não permitiu que os filhos tivessem celulares até o ensino médio, e mesmo agora proíbe o telefone no carro e o limita severamente em casa.

“Outros pais perguntam: ‘Você não fica preocupada quando não sabe onde seus filhos estão e não consegue localizá-los?’”, disse Athena. “Eu respondo que não preciso saber onde eles estão a cada segundo do dia”.

Há muito tempo, os executivos da área de tecnologia, observando como os aparelhos que eles constroem afetam seus filhos, se sentiram obrigados a fazer uma reavaliação de sua vida e do seu trabalho.

Um deles é Chris Anderson, ex-editor de “Wired” e atualmente diretor executivo de uma companhia que produz robôs e drones.

“Numa escala entre balas e crack, está mais próximo do crack”, disse Anderson falando do celular.

Os especialistas em tecnologia que constroem estes produtos e os que escrevem sobre eles e observam a revolução tecnológica, são ingênuos, afirmou. “Nós achávamos que poderíamos controlá-los”, prosseguiu. “Mas isto está além da nossa capacidade de exercer este tipo de controle. É uma coisa que vai diretamente aos centros de prazer do cérebro em desenvolvimento. Está além da nossa capacidade de pais normais de compreendermos este processo”.

Ele tem cinco filhos e 12 normas tecnológicas. Elas incluem: nada de celulares até o verão antes do início do ensino médio, nada de celulares no quarto, nada de redes sociais até os 13 anos, absolutamente nada de iPads e de tempo com o celular, que ele controla pelo seu. A criança teve um mau comportamento? Ficará desconectada por 24 horas.

“Eu não sabia o que nós fazíamos com os cérebros destas crianças até que comecei a observar os sintomas e as consequências,” explicou Anderson.

Tim Cook, diretor executivo da Apple, afirmou no início deste ano que não permitirá que os seus sobrinhos entrem em redes sociais. Bill Gates proibiu os celulares até seus filhos chegarem à adolescência. Steve Jobs também não permitiu que seus filhos pequenos se aproximassem dos iPads.

No ano passado, um número considerável de grandes executivos que deixaram o Vale do Silício chamou a atenção em termos cada vez mais assustadores sobre o que estes aparelhos fazem ao cérebro humano.

Os que expuseram os filhos aos celulares tentam convencê-los a abandonar o vício, explicando como funciona a tecnologia.

John Lilly, investidor e ex-CEO do Mozilla, tenta ajudar seu filho de 13 anos a compreender que está sendo manipulado por aqueles que construíram esta tecnologia.

“Procuro explicar que alguém escreveu o código para que ele se sinta dessa maneira – procuro ajudá-lo a entender como estas coisas são feitas, os valores introduzidos nelas e o que as pessoas fazem para criar este sentimento”, disse Lilly “E ele responde que só quer gastar seus 20 dólares para comprar

‘skins’ (visual alternativo) do jogo Fortnite.

Há também pais do Vale do Silício que acham que há outras maneiras de tornar o tempo gasto com o celular menos prejudicial.

Renee DiResta, pesquisadora da área de segurança no conselho do Center for Humane Tech, não permite um tempo passivo com o celular, apenas rápidos momentos com jogos de desafio. Jogar um game de construção é permitido, mas olhar um vídeo no YouTube não é, a não ser que seja ao lado dos familiares.

Alguns da área de tecnologia discordam que os celulares sejam perigosos. Jason Toff, 32, que operava a plataforma Vine de vídeo e agora trabalha para o Google, permite que seu filho de 3 anos jogue com um iPad, que, segundo ele, não é melhor nem pior do que um livro.

“É contraditório”, disse Toff. “Mas acho que estou falando em nome de muitos pais que têm medo de se manifestar e serem julgados”.

Ele disse que pensa na própria infância durante a qual assistiu a muita televisão. “Acho que sou uma pessoa normal”.

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