Maduro e oposição tentam via de diálogo com a mediação da Noruega

A Venezuela é um turbilhão onde os acontecimentos se sucedem a um ritmo vertiginoso, quase sempre de forma atropelada. Depois da crise aberta com a frustrada ofensiva de 30 de abril – quando o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, e seu chefe político, Leopoldo López, liberado da prisão domiciliar, tentaram pôr fim ao regime de Maduro – e da posterior perseguição chavista a deputados opositores, ambas as partes exploram agora uma via de diálogo com a mediação da Noruega, em busca de uma saída para a crise no país caribenho.

Nos últimos dias, estiveram em Oslo representantes de Maduro, entre eles o ministro da Comunicação, Jorge Rodríguez, e o governador do Estado de Miranda, Héctor Rodríguez, assim como delegados de Guaidó, o ex-deputado Gerardo Blyde e Fernando Martínez Mottola, ex-ministro no Governo de Carlos Andrés Pérez, aos quais se uniu o deputado e vice-presidente da Assembleia Nacional Stalin González.

Segundo pelo menos três fontes familiarizadas com as conversações, as reuniões foram exploratórias, para avançar em uma agenda de temas e uma metodologia de trabalho.

As mesmas fontes dizem ter havido conversações em separado com representantes da Chancelaria norueguesa, e negaram que uma mesa de diálogo tenha sido instalada.

A notícia sobre essas conversações, que têm o aval de Leopoldo López, levantou suspeitas de parte da oposição.

As reuniões surpreenderam alguns dirigentes, caso de Julio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional exilado em Bogotá, que disse pelo Twitter que tanto ele como seu partido, o Primeiro Justiça, ficaram sabendo da iniciativa quando esta se tornou pública através de vários meios de comunicação venezuelanos. Guaidó tentou minimizar os encontros, mas sem negá-los, com um tuíte em que sugeria não se tratar da única iniciativa em marcha: “Grupo de Contato, Canadá, Reino Unido, Noruega, Grupo de Lima, além de outras iniciativas, nos apoiam para obter uma solução para a crise. Para os venezuelanos, a rota é clara e a mantemos: fim da usurpação, Governo de transição e eleições livres”, escreveu o dirigente do Vontade Popular.

Não é a única via de diálogo explorada nas últimas semanas. Representantes de Maduro se reuniram depois da ofensiva de 30 de abril diretamente com o enviado especial dos Estados Unidos para a Venezuela, Elliot Abrams, e se espera que nesta quinta e sexta-feira representantes de ambas as partes recebam os delegados do Grupo de Contato da União Europeia para escutar suas propostas para o fim da crise.

Tampouco é a primeira vez que as partes recorrem a uma tentativa de negociação para tentar solucionar as enormes divisões institucionais que assolam a Venezuela. Entretanto, os esforços anteriores sempre acabaram em um recrudescimento da confrontação entre o chavismo e a oposição. A exploração prévia à convocação de eleições presidenciais de 2018, feita na República Dominicana, representou para os representantes da Assembleia Nacional uma ruptura aparentemente insanável com o Governo de Maduro, devido à sua vontade de impor as regras do jogo.

Por isso, recusaram-se a disputar aquele pleito, com exceção do ex-chavista Henri Falcón, e assim a palavra diálogo se tornou um tabu em torno de Guaidó. Entretanto, depois do ocorrido no dia 30 e da demonstração de que o regime ainda mantém o controle das Forças Armadas, alguns setores oposicionistas começam a flertar com a ideia de que sem algum tipo de negociação seria impossível obter a saída de Maduro. O próprio chefe do Poder Legislativo reconhece que, se tivesse início um processo de transição, seria necessária a participação de parte do chavismo na reconstrução.

Neste contexto, as reuniões sob o guarda-chuva da Noruega não surgiram repentinamente, mas sim como fruto de encontros que ocorrem separadamente há meses com representantes do país nórdico, e que se intensificaram nas últimas semanas.

A Noruega tem uma ampla bagagem na mediação e resolução de conflitos, e sua atuação se caracteriza pelo sigilo. Nos últimos anos, acolheu algumas das reuniões entre o Governo da Espanha e o grupo separatista basco ETA antes de sua dissolução, e foi, junto a Cuba, o país fiador do processo de paz da Colômbia, que culminou com um acordo entre o Governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha FARC.

Na madrugada de 30 de abril deste ano, López deixou sua detenção domiciliar em meio a uma operação liderada por Guaidó, reconhecido como presidente interino por mais de 50 países, e que tinha na ocasião o apoio de um grupo de soldados – incluindo membros do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin).

O plano buscava iniciar uma rebelião contra Maduro e uma quebra da hierarquia militar, mas fracassou após poucas horas, o que obrigou López a procurar refúgio na Embaixada da Espanha em Caracas.

O líder oposicionista não foi o único que teve que se resguardar em uma legação diplomática. Nos últimos dias, vários deputados solicitaram proteção a diversos países – como Argentina, Itália e México –, o que fez a crise da Venezuela afetar diretamente vários Governos. Esta circunstância pode agora repercutir em sua implicação numa tentativa de diálogo.

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